A vida irreconhecível de Amy Lee (Kerrang!)

Hoje, a vida de Amy mudou para o grau em que um espaço no ônibus de turnê é reservado para Jack Lion Hartzler, seu filho de três anos. Em pouco mais de uma semana, mãe e filho retornarão para casa no Brooklyn, Nova York, e retomarão uma vida de normalidade quieta que parece pelo menos tanto como uma parte da identidade atual de Amy Lee quanto a pessoa que ficará em pé em frente de milhares de pessoas na South Bank de Londres neste fim de semana.

“É claro que eu amo fazer isso e também a conexão que a minha música tem com as pessoas quando é tocada ao vivo”, diz ela. “É forte e inegável. Mas por mais que seja bom, depois de um tempo pode se tornar esgotante e parecer um trabalho e nesse momento tenho que tirar um tempo para mim mesma e minha família. Isso é muito importante para mim. É importante estar em casa tocando o meu piano. Eu não fico enjoada em Nova York, então posso andar por lá e ser a pessoa normal que eu sou. Posso ir no açougue, mercearia, em todos esses lugares”.

SUCESSO DO FALLEN
“O sucesso do Fallen foi esmagadoramente uma bênção”, diz Amy, refletindo sobre as glórias do passado. “O dinheiro que veio dele me deu a independência e liberdade para ir atrás da música que eu queria fazer depois, e me permitiu a ter uma longa carreira. Os pontos positivos, sem dúvida, superam os negativos. Mas também há momentos em que tem sido um fardo… Muitas das músicas daquele álbum foram escritas quando eu tinha 15 anos. E quando foram lançadas, as pessoas logo achavam que me conheciam. Eu era a garota gótica de delineador preto. Eu era a que usava espartilho. E aquela imagem parecia muito marcada. Não vou mentir que depois de um tempo eu comecei a odiar. Via-me sufocada por aquilo. Deparei com uma situação em que queria ir na direção oposta e ser uma pessoa completamente diferente. Queria dizer às pessoas, ‘Vocês não me conhecem. Essa não é quem eu sou'”.

Quando você canta as músicas do Fallen agora, você se identifica com a pessoa que você era quando as compôs?
“Sim, sempre”.

“Acho que há muitos momentos importantes que perdi por causa da minha carreira”, diz ela em resposta a suas ausências cada vez maiores do olhar do público. “Fomos convidados para tocar na cerimônia do Prêmio Nobel da Paz em Oslo em 2011, e por causa disso perdi o funeral do meu avô. E é claro que há coisas como casamentos e outros funerais que perdi. Conforme fico mais velha, percebo que há coisas que eu não quero perder. Quero estar focada nas coisas que realmente importam na minha vida, como a família. Há momentos em que quero ficar com o meu filho e levá-lo ao parquinho. Há momentos em que não quero ser reconhecida na rua”.

A IDEIA DE UM NOVO ÁLBUM
“Quando fazemos música nova, simplesmente não podemos tocar três acordes e lançar”, diz ela. “Escrevo música o tempo todo em casa, mas o lance é que você não quer fazer isso a ponto de parecer um trabalho. Tem que ser algo que estou morrendo de vontade de fazer de novo porque é bom dessa forma. Preciso sentir essa paixão, mas eu ainda acredito na ideia do formato ‘álbum’. É assim que eu escutava música quando mais nova. E com o sucesso que veio do Fallen, eu costumava investir nos álbuns seguintes para que eu pudesse progredir e experimentar coisas novas. Toda vez eu ultrapassava o orçamento. Mas as coisas são diferentes agora; os números não são os mesmos” – nos Estados Unidos, Synthesis vendeu ‘apenas’ 30 mil cópias – “e por isso a abordagem com o dinheiro é diferente”.

“Achei que seria impossível fazer uma turnê na qual tocaríamos com uma orquestra. Imaginava que uma orquestra tinha que viajar conosco em, sei lá, seis ônibus de turnê, e que seria uma fortuna fazer isso. Mas a maneira que funciona é a seguinte: as orquestras são organizadas em cada cidade com músicos diferentes. Eles não necessariamente já tocaram juntos. Esse não é sempre o caso – fizemos um show em Sydney com uma orquestra estabelecida. Contudo, normalmente eles recebem a partitura e aprendem as músicas. É assim que músicos classicamente treinados tocam – eles realmente não ensaiam. Só fazemos um ensaio de quatro músicas para nos certificarmos de que está dando certo. É dessa forma, de verdade. É estranho porque eu acabo conhecendo todos esses músicos e tenho certeza de que muitos deles não sabem quem eu sou. Mas conheci um que toca tímpano que me disse que o Evanescence era sua banda favorita na infância, então isso foi bacana. Ele era bom também, o que foi um alívio – você sempre sabe conhece um timpanista que se destaca!”

Você pode dizer com certeza que haverá outro álbum do Evanescence no futuro?
“Esse é plano. É o que estamos planejando. A razão pela qual falo isso dessa maneira é porque eu não tenho um cronograma no momento. Sou péssima quando se trata de planejar com antecedência. Preciso muito não me sentir presa, e no final de todo projeto sinto que preciso seriamente de um descanso. Preciso chegar num momento em que me jogo no próximo projeto”.

As pessoas deveriam ficar preocupadas com o futuro da banda?
“Não, não mesmo”, diz ela. “Estamos em turnê pela Europa agora e depois no verão voltamos em turnê nos EUA, então estamos ocupados. Mas eu nunca fui o tipo de pessoa que planeja o que vem a seguir quando estou no meio da coisa que estou fazendo no momento. Preciso de tempo pra me recarregar, e depois saberei o que o futuro me espera.”

ASSÉDIO SEXUAL
“Eu nem sei por onde começar [sobre o #metoo – a hashtag que expõe a magnitude mundial do assédio sexual] porque eu não tenho uma história minha pra contar. Eu não tenho um causo horrível que aconteceu comigo que agora estou mantendo em segredo. Mas as coisas de fato parecem ter mudado na minha época e é claro que sou agradecida por isso. Mas isso não quer dizer que não tinha que lutar minhas lutas ao longo do caminho.”

Você quer dizer no sentido das pessoas fazendo e dizendo coisas que você agora vê como claramente inadequadas?
“Não, não, não”, diz ela, enfaticamente. “Acho que tem a ver com ser tratada como a garotinha boba que não sabe o que é bom para ela e que precisa ser dita o que fazer por pessoas que acham saber mais. E mesmo quando isso aconteceu, é difícil dizer quando aconteceu porque sou mulher ou porque eu sou jovem e as pessoas queriam fazer direito comigo. E talvez possa ser as duas coisas, porque essas coisas não são mutualmente exclusivas. Mas nesse tempo que tenho feito música, eu vi as coisas mudarem. Sei que o rock clássico é visto como um ‘privilégio masculino’, mas há tantos subgêneros agora e há muitas mulheres trabalhando nesses campos. Já trabalhei com muitas mulheres na cena do rock, e a razão pela qual elas estão aí é porque elas estão no topo. Elas merecem estar aí.

SER VISTA COMO UM EXEMPLO
“Acho que me vejo como sendo uma irmãzona”, é a resposta de Amy a inevitável pergunta para saber se depois de 15 anos ela se vê como um exemplo. “Na minha família, eu sou a mais velha de todos os irmãos, então sempre fui como uma irmã para muitas crianças incríveis e criativas. E aquela relação se deslocou para o tipo de relação que tenho com nossos fãs. Eu sei que as pessoas me admiram e também sei que isso é algo a se levar a sério. Foi mais difícil fazer isso quando eu era mais jovem. Aos 21, eu cometia erros o tempo todo. E tenho certeza de que estou cometendo erros, mas agora percebo que há algo na música que conecta as pessoas e isso é importante. Percebo agora que a música é muito maior que eu.”

UMA CARTA PARA A AMY MAIS NOVA
“Qual conselho eu daria para a Amy Lee que estava prestes a lançar o Fallen? Eu diria a mim mesma que as lutas que você vai ter e as batalhas que você vai passar valerão a pena porque quando elas acabarem, e quando forem ganhas, você ainda estará de pé e será aquela que se importa muito com o que faz. Também diria a mim mesma para não se preocupar porque eu seria muito mais feliz aos meus 30 do aos 20, mas que só vou alcançar esse momento com tempo e experiência. Chegará um momento em que serei mais feliz sendo eu do que naquela época. Diria a mim mesma que não importa o que as pessoas achem, e que eu vou perceber que o que quero para mim é importante, mesmo que na época parecesse impossível. Diria a mim mesma que mesmo quando me sentisse insegura e com medo, e quando tudo parecesse um problemão, haverá um momento em que serei mais confiante em quem eu sou. Direi a mim mesma que vou gostar o que tenho feito e que serei capaz de relembrar a música que fiz e me sentir orgulhosa. Também diria que tudo ficará bem e que não sou louca!”

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