Entrevista da Amy na Kerrang! do mês de outubro

Por um minuto, a vida de Amy Lee foi um furacão. Com o lançamento de seu álbum de estreia, Fallen, em 2003 – que agora vendeu 17 milhões de cópias – sua banda Evanescence foi marcada como uma mistura de harmonias assombrosas e barrocas com guitarras pesadas, e ela imediatamente se tornou um nome familiar.
O dia a dia da cantora ficou um pouco louco. A fama rodeou a banda, causando a separação com o guitarrista original, Ben Moody. O Evanescence lançou mais três álbuns, incluindo Synthesis no ano passado, uma reinterpretação orquestral de algumas das músicas antigas da banda, incluindo o single de sucesso “Bring Me to Life”, uma música que pareceu seguir Amy onde ela ia – até no metrô de Nova Iorque.
“Eu estava no trem, indo resolver umas coisas”, ela ri. “Você escuta todos os tipos de barulho no trem, mas quando você escuta a sua própria voz, você a reconhece. Eu olhava, pensando, ‘De onde ela vem?’ Vinha dos fones de um cara que estava sentado na minha frente. Estava muito lotado, era hora de pico, e eu estava observando-o, pensando, ‘O quão engraçado será se ele me ver?’ Eu tentei fazer contato visual, e me preparei pra descer do trem, mas ainda olhando pra ele, e bem antes de eu sair, eu vi que ele me viu. Sorri, o trem partiu e eu nunca disse nada a ele. Foi tão incrível”.
Muito mudou desde aquela onda de aclamação. Apresentar-se ao vivo, o que Amy admite que já foi “uma montanha-russa”, se tornou uma experiência conjunta. “É assustador, você fica amedrontado, mas depois você anda e quer ir de novo”. A sua vida parece mais estável também, e seu filho de quatro anos, Jack, agora a acompanha em turnê. “Ele é obcecado com os ônibus!” Em seguida há outros trabalhos fora do Evanescence, entre eles as trilhas sonoras de Amy para os filmes Indigo Grey: The Passage (2015) e War Story (2014), sem mencionar o “Dream Too Much” (2016), um álbum gravado com vários membros de sua família.
“Entrei nesse mundo que parecia que tudo era possível”, diz ela. “É estranho ainda estar nele aos 30 anos. Você pensa nisso quando se é jovem e depois isso some, mas acho que estou num momento agora – principalmente nos últimos quatro ou cinco anos – que penso, ‘Por que não?’ Não há nenhuma razão para não tentar. A vida é muito curta…”
Você já imaginou ainda tocar as músicas que escreveu quando era muito mais jovem no Synthesis? Muito menos com uma orquestra?
“Sabe o que é estranho? Eu imaginei. Foi muito como um sonho de infância que se realizou. Quando mais jovem, o primeiro tipo de música que me deixou pensando, ‘Quero ser musicista, sou obcecada com música’, foi Mozart e Beethoven. Eu tinha 9 ou 10 anos. Meu sonho original era ser compositora clássica ou de trilha sonora – algo com o drama cinemático de uma orquestra. Isso mudou quando virei adolescente e meus gostos ficaram obscuros”.
Quais bandas mais pesadas fomentaram essa mudança?
“Nine Inch Nails foi uma das primeiras bandas que me inspiraram. Soundgarden também. Depois Björk e muitos artistas eletrônicos como Massive Attack e Portishead. Comecei a ver semelhanças entre o drama da música clássica e o som mais pesado que eu escutava, e eu queria juntar essas duas coisas”.
Quando você percebeu que tinha uma voz para conduzir essas melodias?
“Levou muito tempo, para ser honesta. Mesmo em nosso primeiro álbum, que foi o mais sucedido comercialmente. Eu tinha 21 anos quando o gravamos, e mesmo quando o escuto agora eu lembro estar no estúdio e me sentir muito insegura. Eu tinha medo de arriscar muito com minha voz, então eu sempre fazia de maneira séria, não fazia nada além do que eu sabia que podia fazer. É difícil de explicar porque é um álbum bonito, tenho muito orgulho dele, mas mesmo naquela época eu ainda tentava me forçar a me sentir segura o suficiente para gravar. Sempre me via como cantora no segundo plano, e como compositora e musicista em primeiro”.
Quando você começou, foi difícil tentar superar sua timidez para se apresentar em cafeterias e shows pequenos?
“Sim, assustador. Eu era adolescente nessa época, e você fica muito preocupado com o que os outros pensam de você. Tudo que você faz é uma captura de sua identidade. ‘Se eu não fizer isso direito, então eu sou uma droga’. Não que eu tive uma noite horrível, ou um show horrível, é que eu sou uma droga. Ou, ‘Minha identidade está na música, então se as pessoas não gostarem, elas não vão gostar de mim’. Isso faz parte de ser artista. Se você vai se expressar artisticamente e compartilhar com as pessoas e se elas rejeitarem, você tem de encontrar uma maneira de não sentir que elas te rejeitaram. Você também tem de aprender a diferença entra o público, a família e os amigos que realmente te conhecem. Nessas cafeterias e pizzarias, como adolescente, eu tremia de pé com meus olhos fechados, dando o meu melhor e sobreviver o momento. Mas várias pessoas passam por isso, principalmente quando você é tão jovem assim, pra aprender, ‘Ei, eu sobrevivi! Ninguém me odeia, e a vida segue mesmo que eu tenha sido tão boa’. É uma experiência básica – a cada vez que você faz, mais você fica à vontade”.
O sucesso do Fallen em 2003 te pegou de surpresa?
“Minha vida tem sido muito cheia de extremos. É difícil resumir como foi quando tudo começou porque estava acontecendo muito rápido, mas havia muitas outras coisas rolando ao mesmo tempo. Eu tive grandes tragédias na minha vida, e também grandes vitórias. Mas na época da primeira música, Bring Me To Life, chegou ao número 1 no Reino Unido, e o próximo single também (Going Under, que figurou em oitava posição no Reino Unido)… Tudo estava acontecendo e nós estávamos no Grammy! Aquele ano inteiro, por mais que tenha sido maravilhoso, ao mesmo tempo meu irmão Robby estava fazendo uma cirurgia cerebral e encarando o fato de que ele talvez nunca fosse ficasse bem. E a minha família estava muito feliz e animada por mim, e percebi que havia muita turbulência dentro da banda, nos bastidores, naquela época. Tinha muita coisa acontecendo. Foi maravilhoso e horrível, e muito aprendizado aconteceu. Sou grata por tudo. De alguma forma, eu sou muito mais feliz por estar onde estou agora, do que eu era no passado.”
O que você aprendeu sobre si mesma pelo prisma do sucesso fenomenal?
“Essa é a parte difícil. Quando você está tentando projetar a ideia de ‘tudo é incrível! Me sigam! Comprem meu álbum!’, isso não é real. Algo que me ajudou a balancear tudo isso é que eu amo ser capaz de mostrar – por meio da minha arte e sofrimentos da minha vida – a luta que isso realmente é. Porque quanto mais honesta posso ser em relação a como realmente me sinto às vezes, aos meus momentos mais obscuros, mais posso me sentir à vontade de ficar em cima do palco e aceitar os aplausos. Sinto-me mais completa, e faz sentido quando sei que as pessoas sabem que não é fácil e que já passei por algo difícil, e não é uma cena perfeita. Exibir a cena perfeita de ‘Feliz, incrível, é isso aí’ não é real. Não faz sentido”.
A fama te assusta?
“Foi estranho. Falei disso no segundo álbum, The Open Door, porque era uma coisa nova para mim. Muito do que eu precisava escrever sobre era a estranheza da fama. Eu era muito jovem. Foi difícil perceber, ‘Ah, todo mundo tá vendo cada coisinha que eu faço’. Então tem a pressão, que foi difícil a princípio, mas você tem que encontrar maneiras de isso fazer sentido em sua cabeça. Você não precisa aderir a seu próprio hype e ficar de castigo porque senão você se perde e fica uma loucura. Já vi isso acontecer com outras pessoas e é triste e horrível. Amo meus amigos. Amo a minha família – sempre houve coisas que são mais importantes para mim que minha banda, não importa o quão famosa a banda tenha ficado”.
Você já sentiu que foi tratada diferente porque você era uma das poucas mulheres proeminentes em um cenário dominado por homens?
“É engraçado, mas para mim foi muito difícil separar o que era a eu jovem e a eu mulher. Acho que o tratamento que você recebe das pessoas é às vezes o mesmo. Ou te tratam como uma criança idiota, e você não sabe o que está fazendo, então você deve calar a boca e escutar o mais velho. No começo da minha carreira, eu senti que estava lutando muito sendo jovem. Relembrando agora, reconheci que muito disso era porque eu era mulher. Quando cresci e as coisas mudaram para nós, aprendi a reconhecer mais isso. Aprendi como ter mais confiança em meus instintos e como ficar firme com isso. Mesmo na minha banda eu sempre fui a mais jovem. É engraçado, eu sou a líder, sou uma mulher e a mais jovem, então os outros vão ou achar legal ou recuar. Não importa quem você seja, de que sexo você seja, você tem de se apoiar, principalmente quando se trata de arte. Dizer, ‘essa é a minha arte, acredito nela e você não sabe melhor que eu porque arte não é sobre ser bom ou ruim, é sobre ser fiel ao coração e à arte. Então somente eu posso dizer o que sinto, e você vai ter que me deixar dizer e não mudar”.
Como você lida com a crítica?
“Eu tento não prestar atenção e não levar a sério. Tenho uma regra que tento seguir, que é: seja fiel a si mesmo e faça música que você ama, então você não ninguém pra responder. Se alguém não gostar, tudo bem – eles não precisam. Não estou fazendo para os outros. É o que é preciso se você quer lançar seu trabalho, seu arte e seu coração. As pessoas vão julgar, mas esse não é o motivo disso. Não estou baseando minha ideia de sucesso nesse julgamento”.
Seu irmão Robby faleceu tragicamente no começo deste ano. Isso te deu um novo ímpeto para escrever e criar?
“Estranhamente, sim. A princípio eu não conseguia nem falar e o fato de que eu tinha que subir no palco e tocar era algo que eu nem conseguia pensar, ou digerir. Eu não tinha ensaiado nenhuma música antes de subir no palco na Austrália quando tocamos no Sydney Opera House. Já tínhamos o show marcado e era uma coisa pela qual eu estava muito animada, mas depois de tudo que aconteceu, fiquei tipo, ‘Não quero mais, não consigo. Não tem como, é fisicamente impossível eu subir e ser a líder na frente das pessoas’. Mas depois subimos – tínhamos de fazê-lo. E eu queria tocar”.
“Sou tão grata naquele momento em cima do palco, porque eu senti a verdade que estava nas palavras que eu já havia composto. Eu não tinha a força para compor algo novo naquele momento. Você fica abalado, mas eu fui capaz de ouvir minhas próprias palavras de uma década ou até antes… se eu tivesse que cantar sobre alegria e arco-íris, eu teria que cancelar o show. Eu não ia conseguir”.
Recentemente, você fez sua primeira tatuagem – três corações pixelizados do jogo The Legend of Zelda – em tributo ao Robby. O que significou para você?
“Foi uma linda experiência. Eu fui sozinha. Foi uma coisa pessoal, mas me deixou feliz. Pela primeira vez na minha vida eu queria que algo fosse mudado para sempre. Sempre me senti, ‘ah, eu não sei quem vou ser no dia de amanhã, eu quero que algo seja possível, não sei o que quero fazer, eu nunca ia ter algo permanente’. Mas eu nunca vou desejar que a tatuagem não esteja lá para lembrar dele todos os dias”.

“Seja fiel a si mesmo e faça a música que você ama.”

Como ser mãe na estrada te mudou?
“É lindo, e dá muito mais trabalho, mas é tão recompensador. Nunca me senti tão completa na estrada como agora tendo a minha família comigo. Meu filho tem quatro aninhos e ele é muito mimado na estrada. Não estou dizendo que ele é malcriado – ele é bonzinho – mas agora estamos em casa e ele pergunta, ‘onde estão todos os meus amigos?’ Ele não tem medo do público, ele corria de lá pra cá no palco e ele se curvava conosco no final de todo show. Deixa tudo mais divertido, porque faz todo mundo ver como é legal o que fazemos – eles veem pelos olhos dele. Foi muito bonito – para todos, eu acho – tê-lo na turnê”.
Você acha que sobrou algum desejo criativo?
“Não acho que você nasce com esses desejos que nunca mudam, que você os usa e depois você morre. Acho que você tem que desenvolver novos. O desejo continua, com certeza. Eu estive em casa só por uma semana e já estou trabalhando em uma pequena ideia de colaboração. Eu me sinto criativamente inspirada, mas com um pouco de mente aberta. Estamos planejando a começar compor para o próximo álbum do Evanescence ano que vem, então sim, vamos seguir em frente. É bom fazer música agora. Não tenho uma grande visão, mas no momento, quando você se sente criativa, você só faz e vê como que sai, seguindo a trilha até você se sentir satisfeito”.

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