Metal Hammer: Quando os mundos colidem

Vocês compartilharam o palco pela primeira vez nesta semana, mas quando vocês se conheceram pela primeira vez?
Sharon: “Nos conhecemos em outubro do ano passado… não foi, Amy?”
Amy: “Não lembro direito, mas nos conhecemos ano passado. O Within Temptation foi muito legal e veio em um de nossos shows.”

Sério? É espantoso que o caminho de vocês não se cruzaram antes…
Sharon: “É bem estranho que não nos conhecemos antes, mas estou satisfeita que finalmente aconteceu. Fiquei feliz de a conhecer depois de tantos anos. Você não sabe o que esperar quando você não conhece a pessoa antes, mas nós duas tivemos uma conversa bonita.”
Amy: “Começamos a falar sobre o significado da vida dentro de minutos. Uma conversa longa, linda e vulnerável –  pelo menos do meu lado eu me senti vulnerável, mas me senti segura sendo vulnerável com você. Eu não tenho muitos amigos pelo mundo, sou uma pessoa que gosta de encontros frente a frente. Quando você conhece outra mulher que é da cena do rock ou de música pesada, tendemos a nos apegar. Somos como uma pequena gangue. Penso em você às vezes e também sobre aquela conversa e, isso pode parecer um pouco estranho porque nos vimos algumas vezes, mas eu sinto empatia por você.”
Sharon: “O mesmo rola comigo. Eu não sabia o que esperar e depois quando fomos embora, eu estava cheia de emoção com arrepios.”

No começo dos anos 2000, o metal influenciado pelo gótico e sinfônico não estava exatamente na frente do cena do metal. Vocês se sentiam como os adolescente fora de moda chegando numa festa?
Amy: “Eu não queria estar na moda. Todas as bandas e músicos que eu idolatrava eram únicos, eles não se pareciam com ninguém. Houve uma grande briga que sempre tive com a gravadora. Eles viam isso como um obstáculo. Lutei muitas batalhas ao longo dos anos para fazer as coisas do nosso jeito. Ser um pária é legal! Todas essas pessoas precisam de uma voz e sinto que existem mais de nós do que dos outros.”
Sharon: “Na época que estouramos, éramos as ‘novas crianças na vizinhança’, mas estávamos na cena há muito tempo. Nos libertamos da cena underground na Europa. As pessoas não sabiam nos decifrar. Éramos uma banda underground enchendo as casas de shows.”

Quais suas lembranças da indústria fonográfica daquela época?
Amy: “Tivemos um momento surreal quando ganhamos o Grammy muito cedo na nossa carreira. Estávamos lá no tapete vermelho, e metade das pessoas nem vinham nos entrevistar. Ninguém sabia quem a gente era. Todas essas pessoas famosas estavam lá, como a Fergie e o 50 Cent.”
Sharon: “Um mundo completamente diferente!”
Amy: “Eu não tinha expectativa de nada, porque estávamos concorrendo com o 50 Cent. E quando chamaram o nosso nome, pensei, ‘Ai, merda’. Tive que pôr meus sapatos e subir lá.”
Sharon: “Não queriam nos tocar no rádio, mesmo quando tivemos um grande sucesso com nosso álbum [The Silent Force] e em todo lugar que tocávamos estava com ingressos esgotados. Tinha algo chamado The Box [um canal de TV] nos Países Baixos que você ligava lá para pedir seu clipe favorito. Daí todo mundo que foi ao nosso show começou a ligar, então sem saber nos colocaram na seleção. Foi tudo causado pelo rádio – por causa do The Box, ficamos no segundo lugar, então tinham que nos tocar no rádio!”

Então, de repete, vocês duas ficaram famosas. Como foi isso?
Sharon: “Foi difícil para mim ir do underground para o mainstream, porque todo mundo tinha uma opinião de você. A gente tocava em todo grande festival e você está sendo visto, o que é bom, mas perdemos aquele sentimento acolhedor do underground, onde nos encaixávamos.”
Amy: “De repente você recebe muita crítica porque as pessoas ouvindo você não teriam escolhido ouvir você. Demorou um pouco para me acostumar. Compartilhamos os lugares mais vulneráveis dentro de nós mesmos, num palco grande, para o entretenimento das pessoas, aí elas vão lá e jogam tomate em você.”

Logo fizeram comparações entre suas bandas. Por que vocês acham que isso ocorreu?
Sharon: “Crescemos em dois mundos simultâneos ao mesmo tempo, mas o Evanescence soa muito diferente do Within Temptation. Tem sintetizador, é pesado em partes e é orquestral, mas eles eram mais nu metal. Comparavam os dois – como nos parecíamos, nós duas têm cabelo preto e vestimos um tipo parecido de roupas – mas o Evanescence era mais uma versão norte-americana e nós uma versão europeia.”
Amy: “Lembro da primeira vez que fizemos turnê na Europa, havia um grupo de bandas que eu nunca tinha ouvido falar antes. Muitas dessas bandas, como vocês [WT], já estavam na cena mais tempo que nós. Chegamos na Europa e lembro de ser bombardeada com essas perguntas: ‘Ah, é tão óbvio que vocês se inspiraram no Within Temptation’. E lembro de ficar frustrada, ‘Por que estão me dizendo que sou uma cópia de algo que eu juro que não conheço?’ Com bandas lideradas por mulheres em geral, as pessoas só veem como um estilo. ‘Bandas lideradas por mulheres’ não é um estilo. Há muitas bandas assim que soam diferente. Apenas o gênero da vocalista. Sério? É isso que é necessário para um estilo existir?”

Sharon, em 2007, o Within Temptation fez uma turnê com o Lacuna Coil e In This Moment chamada ‘The Hottest Chicks In Metal’ [As Mulheres Mais Sexy no Metal]…
“Meu Deus! Haha! Não tive nada a ver com isso! Não fiquei sabendo disso até entrar no avião. Um dos meninos disse, ‘Estamos na turnê Hottest Chicks In Metal’ e piscou pra mim. Eu disse, ‘A o quê? Quem inventou esse título idiota?’ Mas é como eles vendem a turnê, é claro, porque vai apelar pra uma determinada audiência. A turnê foi divertida, nos divertimos muito.”

Uma turnê com um nome assim não poderia existir nos dias de hoje, né?
Sharon: “Espero que não! Depende de quem pensa no nome e se ninguém o rejeita! Sempre terá alguém num escritório que vai achar uma ótima ideia.”
Amy: “Eu estava na capa de Hottest Chicks In Hard Rock. Pensei, ‘Ok. Legal, vai ser bom pra banda.’ Mas depois, nos próximos dois anos, as perguntas em todas as entrevistas eram: ‘Então, votaram em você como a mulher mais sexy no rock! Como você se sente?’ Parece estúpido. Parece que o foco vai pra coisa errada. Não é difícil parecer sexy numa sessão de fotos. Qualquer mulher ficaria sexy.”
Sharon: “Qualquer homem ficaria também e não o chamam de ‘o cara mais sexy no metal’. Chamam-no de homem mais legal no metal.”
Amy: “Quem quer que sejam os empresários por trás – os caras com cigarros – eles acham que o mundo, o público, é mais bobo que eles. Acham que as pessoas são tão bobas a ponto de dar tudo mastigado a elas.”

Vocês já sofreram a pressão de ‘sensualizar as coisas’?
Amy: “Eu nunca fiz o que eu não queria fazer. Tenho orgulho disso, mas sempre tem aquelas vezes em que te dizem, ‘Ei, é só como as coisas funcionam. As pessoas vão focar nisso, você precisa perder 13 quilos.’ É realmente a sua escolha se você quer seguir esse conselho ou deixá-lo de lado. A única coisa que isso fez foi fazer me sentir um pouco insegura, principalmente aos 21 anos…”
Sharon: “Sim, você era muito jovem…”
Amy: “A decisão irrevogável foi, ‘Não vou fazer aquilo’. Sempre foi, ‘Serei quem eu sou.’ Estávamos falando sobre se inspirar em bandas que são únicas, e isso era mais importante para mim do que ter um grande sucesso. Agradecidamente, também tivemos sucesso e isso é parcialmente, como eu gosto de pensar, algo que nos pôs de lado porque não estávamos fazendo o mesmo que toda garota na indústria.”
Sharon: “Eu amo vestidos grandes de contos de fada porque eu queria ser designer quando criança. Fiz as duas coisas no meu tempo. [Sharon tem um diploma de bacharel em gestão de moda e trabalhou como estilista e designer] Eu queria fazer música e ser cantora, e a outra coisa era desenhar e ser designer. Quando entrei na banda, queria vestir esses vestidos grandes e a gravadora disse, ‘Você não poderia ser um pouco mais sexy?’ Pensei, ‘Não, essa é quem sou e me sinto à vontade assim.’ Isso também realçava a música que fazemos, que é grande, épica e orquestral. Combinava com a música.”
Amy: “Amo saber desse seu interesse em moda, porque eu não sabia isso de você. Eu fazia minhas próprias roupas também, porque eu não achava o que queria. Até mesmo na escola eu queria ser diferente. Eu tinha algo específico na minha cabeça, então aprendi a costurar com uma máquina de costura.”

Amy, você era frequentemente rotulada de ‘diva’ no começo. Você acha que isso foi uma percepção injusta?
“Com certeza. Acho que isso tem a ver com as pessoas que eu tinha ao meu redor e eles eram todos homens. Quando você é representada por muitos homens mais velhos que querem que você faça o que eles mandam e você não tem uma opinião própria, é claro que eles vão dizer que você é uma megera quando você não os obedece.”

As atitudes em relação às mulheres na cena do metal estão mudando?
Sharon: “Quando estamos tocando ao vivo, eu nunca encontrei nenhum problema, mas talvez porque meu namorado estava comigo! Haha! Sei de tanta coisas desagradáveis que acontecem com as mulheres na cena, me considero com muita sorte. O público nos shows sempre foi muito apreciativo. Nunca ouvi ninguém falar ‘mostra seus peitos’ ou algo do tipo.”
Amy: “Aconteceu uma vez comigo. Parei a música, gritei pro cara, ‘O que você disse? Olhem o que esse cara me disse. Não estou pedindo pra darem um soco na cara dele, mas se alguém o fizer, não te culpo.”
Sharon: “Haha!”
Amy: “Isso foi no início, durante nosso primeiro ano de turnê, e eu nunca tive que lidar com isso de novo. Você determina o limite do que você se sente à vontade e o que você não vai tolar. Quando você parece um animal ferido, você é comido vivo.”

Amy, o que você achou do Within Temptation quando ouviu pela primeira vez?
Amy: “[Para Sharon] Eu só fui ouvir a música com profundidade, os álbuns inteiros, quando te conheci. Foi depois que conversamos ano passado. Voltei pro ônibus e pensei, ‘Preciso ouvir aquela música.’ Não lembro que música era, mas era um grande sucesso…”
Sharon: “… provavelmente Ice Queen…”
Amy: “Eu estava totalmente fechada porque não gostei de ser comparada com alguma coisa. Não tinha ouvido e eu deveria ter ouvido porque tipo, ‘Essas melodias são demais e a voz dela é linda!”

As duas evoluíram e experimentaram com seu som. Como isso é importante para vocês?
Sharon: “Sempre tentamos fazer algo novo e crescer, mas também acompanhar o que está acontecendo no mundo musicalmente nos dias atuais. Há tantos novos sons, novos programas e novas coisas que se pode fazer, é tão animador! Você não quer ficar preso ao som que você fazia nos anos 90 ou 2000, você quer soar como 2019 ou 2020.”
Amy: “Você quer fazer música que soe como algo que você quer escutar! Não estou escutando a mesma música que eu escutava há 20 anos. Eu gosto muito do seu novo álbum que saiu esse ano. Gosto muito da direção que vocês estão tomando. É em direção ao futuro de uma forma bonita e natural que parece que vocês sempre pertenceram lá.”

E agora vocês finalmente anunciaram uma turnê juntas!
Amy: “Os fãs pediam para nós fazermos algo juntas há muito tempo. Acho que eles vão ficar muito animados. Estou interessada em ver a reação, porque eu acho que algumas pessoas vão pensar, ‘Finalmente!'”
Sharon: “Eu acho que vamos nos divertir muito!”

Nessa nota, começamos a encerrar nossa conversa. Mas antes de partirem, nossas entrevistadas querem refletir sobre a importância da representação feminina nos palcos da música. “Algo que eu acho realmente forte e poderoso são as mulheres que abraçam sua feminilidade”, diz Amy. “É realmente um caminho fácil se tornar agressiva demais para se encaixar com os homens. Essa é a coisa mais legal que você pode fazer, especialmente na cena musical pesada, porque é um contraste. É algo que um homem pode não pode fazer como podemos.”

“Às vezes é também por isso que você recebe críticas”, acrescenta Sharon. “Os caras falam que é ‘muito feminino’. Alguns homens não se identificam com isso, o que eu posso entender, mas é isso que nós, mulheres, devemos trazer para a música. Isso é o que nos torna diferentes de todos os homens e bandas lideradas por homens.”

E quanto ao impacto que elas e suas bandas tiveram na evolução do metal, é Amy quem oferece um pensamento final: “Não existe nada mais rock’n’roll do que não ter vergonha de ser exatamente quem você é”, diz ela com a convicção que alguém só poderia ter ao sobreviver há mais de 20 anos no negócio. “Isso é metal.”

É um ethos que todos nós podemos levar pra vida. E com isso elas seguem com suas bandas em direção a novas eras onde existe outra geração para inspirar.

Scans cortesia de @GamesOfEV

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